Gosto quando me amas
Meu corpo e meu leito ficam impregnados com teu cheiro
Fico inebriada, bêbeda de ti
Permaneço enroscada nos lençóis
Abraçada aos travesseiros por horas infindas
Só para aspirar teu perfume
Gosto quando me amas
Tudo ao meu redor é resto
Até teu cheiro extinguir-se
Depois banho meu corpo
Lavo os lençóis
E perfumo a cama com spray de rosas
Lá se foi teu cheiro pelo ralo...
segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007
quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007
Fragmentos
Hoje amanheci com o coração cheio de estilhaços.
Fragmentos de dor da alma.
O amor, quando não atendido, vira um furacão devastador.
Sai por aí arrasando tudo, ignora sonhos, desentende paixões.
Acredito mesmo, que o amor seja protegido de Zeus.
Ele cede seus raios, trovões e tempestades para que o amor nos puna.
Pouco importa que seus ventos atinjam inocentes insanos.
Quem manda ousar negar seus eloqüentes pedidos?
Amanheci e estou assim, cheia de dor.
A esperança faz acreditar que Cronos abrandará a alma e cicatrizará o coração.
E todo resto é eterno.
Fragmentos de dor da alma.
O amor, quando não atendido, vira um furacão devastador.
Sai por aí arrasando tudo, ignora sonhos, desentende paixões.
Acredito mesmo, que o amor seja protegido de Zeus.
Ele cede seus raios, trovões e tempestades para que o amor nos puna.
Pouco importa que seus ventos atinjam inocentes insanos.
Quem manda ousar negar seus eloqüentes pedidos?
Amanheci e estou assim, cheia de dor.
A esperança faz acreditar que Cronos abrandará a alma e cicatrizará o coração.
E todo resto é eterno.
sexta-feira, 16 de fevereiro de 2007
A Mulher, a cidade e os aeroportos
A noite chegou rápido para um dia de verão, são 19 horas e um breu tomou conta de tudo, lá fora só um sem fim de raios, trovões e granizo.
Bem que a companhia de aviação avisou que o vôo iria atrasar, isto antes da tempestade se formar, imagine agora!
Mesmo sabendo do atraso do vôo vim cedo para o aeroporto, não suporto mais ficar nesta cidade, até o ar daqui já me sufoca, nem meus pulmões querem continuar neste lugar miserável.
Depois de tanta confusão nos aeroportos, este hoje está vazio. Meia dúzia de pessoas. Antigamente eu analisaria cada uma, suas roupas, suas expressões, as bagagens, as revistas...
Vou tomar um café, talvez seja a única coisa boa desta cidade: o café. Sou viciada num bom, amargo e quente café.
A voz rouca no alto-falante avisa que todos os vôos estão atrasados e sem previsão de chegada ou saída, não há teto. Nem precisava dizer, pois só algum imbecil desta cidade acreditaria que algum avião iria aterrissar ou alçar vôo numa tempestade destas!
Hahahahahaha! Vai ver que a chuva é a minha despedida deste mundinho de medíocres, arrogantes e pedantes miseráveis que se intitulam humanos.
-Por favor, um expresso duplo com canela.
-A senhora quer açúcar ou adoçante?
-Nenhum dos dois, obrigada.
Queria mesmo uma máquina do tempo, para voltar alguns anos e nunca ter pisado neste lugar fétido. Isto, fétido! As pessoas daqui fedem. O preconceito deste povo está impregnado com cheiro de merda.
Bem lembro do dia em que desembarquei neste mesmo aeroporto seis anos atrás. Trazia na minha bagagem um tanto de esperança, felicidade e sonhos. Promessas, promessas, promessas...
Sentei neste mesmo lugar, eles ainda não serviam o café com canela, mas este sempre foi de um sabor e aroma deliciosamente envolvente.
Aqui também, há seis anos, o encontrei.
Quando virei o rosto e avistei aquele sorriso imenso fui obrigada a sorrir também, fiquei contagiada.
Levantou-se e veio em direção a minha mesa. Era um homem alto, elegante, mas com aquele uniforme qualquer um pareceria elegante. Não, definitivamente ele não era bonito. Olhos escuros e profundos tão inebriantes quanto aquele sorriso. Maldito sorriso, hahahaha...
Era inteligente e dono de um humor sagaz... Apaixonei-me.
Encontrar alguém que sorri e me olha daquele jeito e ainda carrega dois dos meus predicados favoritos é uma dádiva!
Ele não morava nesta cidade, vinha umas duas ou três vezes na semana.
Uma pessoa como ele não poderia ser daqui mesmo.
Fui morar num pequeno apartamento, mas ideal, passava pouco tempo em casa e tinha espaço suficiente para meus livros e plantas.
Resolvi mudar para dar um giro na minha carreira, começar um projeto desafiador. Vim cheia de energia e milhares de idéias, mal sabia que iria encontrar pessoas tão retrógradas e ignorantes.
Decidi vir para esta cidade porque fui procurada por uma empresa com uma oferta irrecusável, não pelo valor financeiro – encontrava-me numa situação bastante agradável – era o desafio de pesquisar outro mercado, descobrir novos públicos, pesquisar, conhecer, aprender, saber, saber, saber.
O descobrir e viver sobre culturas, povos, costumes, este conhecimento que chamo de “pé- no- chão”, que não está nos bancos das universidades, que não titula ninguém, que é diferente em cada bairro, cidade, estado, país é o meu cáften. Leva minha razão, cega, agride. Sei que irei prostrar-me e mesmo assim estou sempre atrás dele, como a meretriz o faz.
Fazer o quê? Cada um com sua droga, sua cachaça, sua sina.
O maior desgosto é sentir o malsinar dos pobres de espírito enquanto construímos “pontes” entre a cultura e a ignorância. Apresentamos projetos e estes são aprovados apenas para mais tarde arderem numa grande, imensa fogueira de vaidades cujas chamas são alimentadas por uma doentia disputa de poder. Cada hipócrita vai impingir sua vontade e assolar a edificação do outro. Antropofagia entre gestores. Politicagem barata.
Tudo bem, então porque insistir? Quero idear um povo que enxerga e busca suas verdades. Cadê? Só em outra cidade e cá para nós, outro país. Aqui? Só se ouve amém. São cegos, surdos e mudos, não que a vida lhes tenha imposto esta condição, optaram pela acomodação e ignorância eterna. É melhor ser o truão, do que ser mal visto pelo rei e como se diz: rei morto, rei posto, viva o rei! A súcia vai atrás.
E sigo alimentando e dando boa vida ao meu “cáften” conhecimento, até chegar ao limite de minha tolerância e jogar tudo para o alto.
Quando recebi meu passaporte fui invadida por um sentimento de liberdade inenarrável e hoje, quando entreguei as chaves do apartamento ao novo proprietário, foi como tivesse tirado uma caçamba de entulhos do meu dorso.
Saí só com uma mala e a frasqueira de mão que a bagagem maior está no espírito, com alegria ou dor é lá que está o meu conhecimento.
A chuva aumentou. Daqui a pouco cai o céu sobre esta cidade encardida.
Só me falta perder a conexão. Porra! Até para sair desta bosta de lugar é difícil. Ele odiava quando eu falava palavras de baixo calão, fora da cama diga-se, porque nela, nela ele adorava.
Vou sentir falta dos passeios nos parques. Vou passear por outros parques, mas ele não vai estar lá. Vou sentir é falta dele nos passeios, não dos parques. Odeio esta mania de confundir o objeto de meu sentimento, comecei a fazer isto há uns quatro anos, já era um sinal para partir.
Algumas vezes acho que sou uma mula teimosa, seis anos...
- A senhora deseja mais alguma coisa?
- Pode me trazer outro café.
Já passa das 9 horas da noite e esta chuva só aumenta, ao menos parou o granizo. Depois que meu avião decolar quero mais é que esta cidade seja engolida pela água, e que o Pai me perdoe por este desejo.
- Seu café.
- Obrigada.
Esta hora ele deve estar na Itália. Depois de tudo ele demitiu-se e foi contratado por uma companhia internacional que não tem negócios neste nauseabundo país. Queria Ter participado mais ativamente de todo esse processo de reconstrução de sua vida. Empresa nova, morada nova.
Desde o escarcéu que culminou com o espetáculo podre de humilhação, tudo foi muito célere. Foi esta grande inteligência e agudeza de espírito que me entorpeceram. Fora aquele sorriso. E o olhar que devasta a alma da gente.
Nunca tinha sentido a felicidade tão viva em mim até viver com este homem.
Pensando bem, acho que nunca tinha sentido meu corpo tão vivo até transar com este homem. E como este corpo viveu... Mil vezes, cada vez mais vivo e mais intenso, mais descoberto, mais meu, mais eu.
Ele nunca poderia Ter pisado nesta cidade. Ele transcende esta imundície toda.
Na madrugada de ontem nos falávamos ao telefone quando ele disse que provavelmente iria estar no aeroporto quando meu vôo aterrissasse.
- Poderíamos tomar um café, não sei se irás gostar do café de lá, mas seria tão gostoso trocar um abraço, um beijo, alguns sonhos e abrandar a saudade.
- Negócio fechado! A saudade de ti é como um estorvo na felicidade que descobri. Assim que desembarcar irei te procurar ou me esperas no desembarque.
- Combinado! Eu te amo.
- Eu também te amo.
E a gente se ama mesmo. Um amor verdadeiramente incondicional.
Dez e meia e lá vem a voz rouca repetindo que os vôos estão atrasados e não há previsão de pousos e decolagem. Tenho que rir. Com toda chuva tem gente que vai ao balcão das companhias para perguntar que horário irá sair o vôo.
Acho que vou comprar uma revista ou algum livro, só para afastar do meu pensamento esta cidade.
Putz, que merda!
Aquele imbecil que minou o projeto de educação tá lá na livraria, melhor continuar aqui. Vou contar até dez. Calma mulher, tu já vais embora desta cidade, é uma questão de horas, respira, levanta a cabeça, descerra os punhos.
Onze e meia.
A chuva está escasseando. O céu parece ter abrandado a fúria voraz que dava a impressão que devastaria este pedaço do mundo.
Pousou um avião. A voz rouca está chamando para embarque, ainda não é meu vôo. Acho que mais uma hora e eu estou fora.
Podia ter pagado alguém para estourar rojões na minha saída, uma comemoração por abandonar a estupidez desta cidade.
Vou caminhar um pouco.
Estão chamando o embarque do meu vôo. Credo! Acho que vou infartar de felicidade.
- Boa noite senhora.
- Boa mesmo, nem imaginas o quanto.
Taxiando... Decolamos.
Assim que chegar ao outro aeroporto para o embarque internacional vou trocar de sapatos e colocar estes no lixo, não quero levar nem o pó daquela cidade de bosta.
Até no pensar eu era mais elegante. Vou Ter que reconstruir tudo que ruiu em mim nestes últimos seis anos.
Vamos aterrar. Não acredito! Não dá para acreditar a pista está seca e o avião derrapou. Vou Ter que correr para não perder o embarque do outro vôo. Eu vou para puta que pariu, mas não vou passar o resto da madrugada neste país! Depois, ele vai estar me esperando lá no aeroporto.
Que boa noite que nada, tenho que correr.
Bem na hora, estão chamando o vôo para Paris, vou trocar de sapatos no avião.
Primeira classe, eu mereço. Já troquei os sapatos. Assim que sair do espaço aéreo deste país irei pedir um espumante e depois vou dormir. Que o Pai não me castigue, tenho que comemorar.
Estamos aterrissando. Tudo novo. Novos desafios, nova casa, novo trabalho, novas culturas. Empolgação, meu corpo está tomado de ti.
Ele está acenando, ainda mais lindo agora do que quando o conheci. O amor retribuído faz com que as pessoas fiquem lindas, o espírito feliz irradia esta aura de beleza. Vem de dentro.
- Que saudades, amado!
- Eu também estava louco de saudades, como foi teu vôo? Fiquei sabendo que o céu quase desabou por lá, tive receio que um atraso impedisse nosso encontro. Temos uma hora para colocar a conversa em dia e matar as saudades, depois tenho que voar. Vamos tomar um café?
- Vamos sim! Aqui em Paris iremos nos encontrar mais, pelo menos nas tuas escalas. E o teu amor como vai?
- Ele está ótimo, estamos muito bem. Acho que depois de toda confusão, todo aquele circo de horrores que passamos naquela cidade, somos sobreviventes.
- Com certeza. Eu perdi o homem, tudo bem, hahahaha, ganhei um grande amigo, feliz e em paz consigo mesmo. Isso não tem preço. Na realidade ganhei dois amigos. Diz para ele que quando tu fores ficar muitos dias fora é para ele vir para minha casa.
- Tu não estás pensando em me roubar o namorado depois de tudo que passei para ficar com ele, bandida!
- Não, nem precisas te preocupar, fala aí da minha casa!
- Está tudo arrumado é só entrares, deixei como sei que gostas, comprei os lençóis todos brancos, toalhas brancas, tem uma comidinha básica na geladeira, frutas e saladas. Deixei alguns jornais e revistas para te inteirar dos acontecimentos da cidade, o micro já está instalado.
- Obrigada, tenho certeza que vai estar tudo muito gostoso e do meu jeito. E ele já está trabalhando?
- Sim, está ministrando aulas na faculdade, fazendo aquilo que gosta, estamos num momento muito bom. Puxa que rápido que passou, tenho que ir. Deixei alguns números de telefone de amigos, pessoas que podem te ajudar no começo, anotados numa agenda que está no aparador da entrada. Deixa eu te dar um braço e um beijo, te amo.
- Eu também te amo, obrigada por tudo. Tchau.
- Não precisa agradecer, tchau.
Bem, acho que vou tomar mais um café antes de ir.
- s'il vous plait un café!
Nossa! De onde vem essa risada? Que sorriso lindo! Ah, Paris...
Bem que a companhia de aviação avisou que o vôo iria atrasar, isto antes da tempestade se formar, imagine agora!
Mesmo sabendo do atraso do vôo vim cedo para o aeroporto, não suporto mais ficar nesta cidade, até o ar daqui já me sufoca, nem meus pulmões querem continuar neste lugar miserável.
Depois de tanta confusão nos aeroportos, este hoje está vazio. Meia dúzia de pessoas. Antigamente eu analisaria cada uma, suas roupas, suas expressões, as bagagens, as revistas...
Vou tomar um café, talvez seja a única coisa boa desta cidade: o café. Sou viciada num bom, amargo e quente café.
A voz rouca no alto-falante avisa que todos os vôos estão atrasados e sem previsão de chegada ou saída, não há teto. Nem precisava dizer, pois só algum imbecil desta cidade acreditaria que algum avião iria aterrissar ou alçar vôo numa tempestade destas!
Hahahahahaha! Vai ver que a chuva é a minha despedida deste mundinho de medíocres, arrogantes e pedantes miseráveis que se intitulam humanos.
-Por favor, um expresso duplo com canela.
-A senhora quer açúcar ou adoçante?
-Nenhum dos dois, obrigada.
Queria mesmo uma máquina do tempo, para voltar alguns anos e nunca ter pisado neste lugar fétido. Isto, fétido! As pessoas daqui fedem. O preconceito deste povo está impregnado com cheiro de merda.
Bem lembro do dia em que desembarquei neste mesmo aeroporto seis anos atrás. Trazia na minha bagagem um tanto de esperança, felicidade e sonhos. Promessas, promessas, promessas...
Sentei neste mesmo lugar, eles ainda não serviam o café com canela, mas este sempre foi de um sabor e aroma deliciosamente envolvente.
Aqui também, há seis anos, o encontrei.
Quando virei o rosto e avistei aquele sorriso imenso fui obrigada a sorrir também, fiquei contagiada.
Levantou-se e veio em direção a minha mesa. Era um homem alto, elegante, mas com aquele uniforme qualquer um pareceria elegante. Não, definitivamente ele não era bonito. Olhos escuros e profundos tão inebriantes quanto aquele sorriso. Maldito sorriso, hahahaha...
Era inteligente e dono de um humor sagaz... Apaixonei-me.
Encontrar alguém que sorri e me olha daquele jeito e ainda carrega dois dos meus predicados favoritos é uma dádiva!
Ele não morava nesta cidade, vinha umas duas ou três vezes na semana.
Uma pessoa como ele não poderia ser daqui mesmo.
Fui morar num pequeno apartamento, mas ideal, passava pouco tempo em casa e tinha espaço suficiente para meus livros e plantas.
Resolvi mudar para dar um giro na minha carreira, começar um projeto desafiador. Vim cheia de energia e milhares de idéias, mal sabia que iria encontrar pessoas tão retrógradas e ignorantes.
Decidi vir para esta cidade porque fui procurada por uma empresa com uma oferta irrecusável, não pelo valor financeiro – encontrava-me numa situação bastante agradável – era o desafio de pesquisar outro mercado, descobrir novos públicos, pesquisar, conhecer, aprender, saber, saber, saber.
O descobrir e viver sobre culturas, povos, costumes, este conhecimento que chamo de “pé- no- chão”, que não está nos bancos das universidades, que não titula ninguém, que é diferente em cada bairro, cidade, estado, país é o meu cáften. Leva minha razão, cega, agride. Sei que irei prostrar-me e mesmo assim estou sempre atrás dele, como a meretriz o faz.
Fazer o quê? Cada um com sua droga, sua cachaça, sua sina.
O maior desgosto é sentir o malsinar dos pobres de espírito enquanto construímos “pontes” entre a cultura e a ignorância. Apresentamos projetos e estes são aprovados apenas para mais tarde arderem numa grande, imensa fogueira de vaidades cujas chamas são alimentadas por uma doentia disputa de poder. Cada hipócrita vai impingir sua vontade e assolar a edificação do outro. Antropofagia entre gestores. Politicagem barata.
Tudo bem, então porque insistir? Quero idear um povo que enxerga e busca suas verdades. Cadê? Só em outra cidade e cá para nós, outro país. Aqui? Só se ouve amém. São cegos, surdos e mudos, não que a vida lhes tenha imposto esta condição, optaram pela acomodação e ignorância eterna. É melhor ser o truão, do que ser mal visto pelo rei e como se diz: rei morto, rei posto, viva o rei! A súcia vai atrás.
E sigo alimentando e dando boa vida ao meu “cáften” conhecimento, até chegar ao limite de minha tolerância e jogar tudo para o alto.
Quando recebi meu passaporte fui invadida por um sentimento de liberdade inenarrável e hoje, quando entreguei as chaves do apartamento ao novo proprietário, foi como tivesse tirado uma caçamba de entulhos do meu dorso.
Saí só com uma mala e a frasqueira de mão que a bagagem maior está no espírito, com alegria ou dor é lá que está o meu conhecimento.
A chuva aumentou. Daqui a pouco cai o céu sobre esta cidade encardida.
Só me falta perder a conexão. Porra! Até para sair desta bosta de lugar é difícil. Ele odiava quando eu falava palavras de baixo calão, fora da cama diga-se, porque nela, nela ele adorava.
Vou sentir falta dos passeios nos parques. Vou passear por outros parques, mas ele não vai estar lá. Vou sentir é falta dele nos passeios, não dos parques. Odeio esta mania de confundir o objeto de meu sentimento, comecei a fazer isto há uns quatro anos, já era um sinal para partir.
Algumas vezes acho que sou uma mula teimosa, seis anos...
- A senhora deseja mais alguma coisa?
- Pode me trazer outro café.
Já passa das 9 horas da noite e esta chuva só aumenta, ao menos parou o granizo. Depois que meu avião decolar quero mais é que esta cidade seja engolida pela água, e que o Pai me perdoe por este desejo.
- Seu café.
- Obrigada.
Esta hora ele deve estar na Itália. Depois de tudo ele demitiu-se e foi contratado por uma companhia internacional que não tem negócios neste nauseabundo país. Queria Ter participado mais ativamente de todo esse processo de reconstrução de sua vida. Empresa nova, morada nova.
Desde o escarcéu que culminou com o espetáculo podre de humilhação, tudo foi muito célere. Foi esta grande inteligência e agudeza de espírito que me entorpeceram. Fora aquele sorriso. E o olhar que devasta a alma da gente.
Nunca tinha sentido a felicidade tão viva em mim até viver com este homem.
Pensando bem, acho que nunca tinha sentido meu corpo tão vivo até transar com este homem. E como este corpo viveu... Mil vezes, cada vez mais vivo e mais intenso, mais descoberto, mais meu, mais eu.
Ele nunca poderia Ter pisado nesta cidade. Ele transcende esta imundície toda.
Na madrugada de ontem nos falávamos ao telefone quando ele disse que provavelmente iria estar no aeroporto quando meu vôo aterrissasse.
- Poderíamos tomar um café, não sei se irás gostar do café de lá, mas seria tão gostoso trocar um abraço, um beijo, alguns sonhos e abrandar a saudade.
- Negócio fechado! A saudade de ti é como um estorvo na felicidade que descobri. Assim que desembarcar irei te procurar ou me esperas no desembarque.
- Combinado! Eu te amo.
- Eu também te amo.
E a gente se ama mesmo. Um amor verdadeiramente incondicional.
Dez e meia e lá vem a voz rouca repetindo que os vôos estão atrasados e não há previsão de pousos e decolagem. Tenho que rir. Com toda chuva tem gente que vai ao balcão das companhias para perguntar que horário irá sair o vôo.
Acho que vou comprar uma revista ou algum livro, só para afastar do meu pensamento esta cidade.
Putz, que merda!
Aquele imbecil que minou o projeto de educação tá lá na livraria, melhor continuar aqui. Vou contar até dez. Calma mulher, tu já vais embora desta cidade, é uma questão de horas, respira, levanta a cabeça, descerra os punhos.
Onze e meia.
A chuva está escasseando. O céu parece ter abrandado a fúria voraz que dava a impressão que devastaria este pedaço do mundo.
Pousou um avião. A voz rouca está chamando para embarque, ainda não é meu vôo. Acho que mais uma hora e eu estou fora.
Podia ter pagado alguém para estourar rojões na minha saída, uma comemoração por abandonar a estupidez desta cidade.
Vou caminhar um pouco.
Estão chamando o embarque do meu vôo. Credo! Acho que vou infartar de felicidade.
- Boa noite senhora.
- Boa mesmo, nem imaginas o quanto.
Taxiando... Decolamos.
Assim que chegar ao outro aeroporto para o embarque internacional vou trocar de sapatos e colocar estes no lixo, não quero levar nem o pó daquela cidade de bosta.
Até no pensar eu era mais elegante. Vou Ter que reconstruir tudo que ruiu em mim nestes últimos seis anos.
Vamos aterrar. Não acredito! Não dá para acreditar a pista está seca e o avião derrapou. Vou Ter que correr para não perder o embarque do outro vôo. Eu vou para puta que pariu, mas não vou passar o resto da madrugada neste país! Depois, ele vai estar me esperando lá no aeroporto.
Que boa noite que nada, tenho que correr.
Bem na hora, estão chamando o vôo para Paris, vou trocar de sapatos no avião.
Primeira classe, eu mereço. Já troquei os sapatos. Assim que sair do espaço aéreo deste país irei pedir um espumante e depois vou dormir. Que o Pai não me castigue, tenho que comemorar.
Estamos aterrissando. Tudo novo. Novos desafios, nova casa, novo trabalho, novas culturas. Empolgação, meu corpo está tomado de ti.
Ele está acenando, ainda mais lindo agora do que quando o conheci. O amor retribuído faz com que as pessoas fiquem lindas, o espírito feliz irradia esta aura de beleza. Vem de dentro.
- Que saudades, amado!
- Eu também estava louco de saudades, como foi teu vôo? Fiquei sabendo que o céu quase desabou por lá, tive receio que um atraso impedisse nosso encontro. Temos uma hora para colocar a conversa em dia e matar as saudades, depois tenho que voar. Vamos tomar um café?
- Vamos sim! Aqui em Paris iremos nos encontrar mais, pelo menos nas tuas escalas. E o teu amor como vai?
- Ele está ótimo, estamos muito bem. Acho que depois de toda confusão, todo aquele circo de horrores que passamos naquela cidade, somos sobreviventes.
- Com certeza. Eu perdi o homem, tudo bem, hahahaha, ganhei um grande amigo, feliz e em paz consigo mesmo. Isso não tem preço. Na realidade ganhei dois amigos. Diz para ele que quando tu fores ficar muitos dias fora é para ele vir para minha casa.
- Tu não estás pensando em me roubar o namorado depois de tudo que passei para ficar com ele, bandida!
- Não, nem precisas te preocupar, fala aí da minha casa!
- Está tudo arrumado é só entrares, deixei como sei que gostas, comprei os lençóis todos brancos, toalhas brancas, tem uma comidinha básica na geladeira, frutas e saladas. Deixei alguns jornais e revistas para te inteirar dos acontecimentos da cidade, o micro já está instalado.
- Obrigada, tenho certeza que vai estar tudo muito gostoso e do meu jeito. E ele já está trabalhando?
- Sim, está ministrando aulas na faculdade, fazendo aquilo que gosta, estamos num momento muito bom. Puxa que rápido que passou, tenho que ir. Deixei alguns números de telefone de amigos, pessoas que podem te ajudar no começo, anotados numa agenda que está no aparador da entrada. Deixa eu te dar um braço e um beijo, te amo.
- Eu também te amo, obrigada por tudo. Tchau.
- Não precisa agradecer, tchau.
Bem, acho que vou tomar mais um café antes de ir.
- s'il vous plait un café!
Nossa! De onde vem essa risada? Que sorriso lindo! Ah, Paris...
segunda-feira, 12 de fevereiro de 2007
Hoje Acordei com Fome
Hoje acordei com fome. Não essa fome de comer alimentos materiais. Uma fome da alma, fome sem fim, fome de mim.
Uma fome de afeto, fome de órfã, fome de paz, fome de vida.
Uma fome persistente, insistente, devastadora.
Hoje acordei com fome de carinho, de colo, de gente de verdade, fome de confiança, de ser criança pequena.
Hoje acordei com a alma roncando, gritando, berrando querendo voltar para casa...
Acordei sem saber onde estou e com este corpo incomodando, aprisionando minha alma e minha paz.
Saudade de mim...
Uma fome de afeto, fome de órfã, fome de paz, fome de vida.
Uma fome persistente, insistente, devastadora.
Hoje acordei com fome de carinho, de colo, de gente de verdade, fome de confiança, de ser criança pequena.
Hoje acordei com a alma roncando, gritando, berrando querendo voltar para casa...
Acordei sem saber onde estou e com este corpo incomodando, aprisionando minha alma e minha paz.
Saudade de mim...
sexta-feira, 9 de fevereiro de 2007
Diga-me
Diga-me,
e a desventura das horas na agonia dos que amam, dos que adoram, que odeiam, choram, gargalham, sofrem e riem?
E a compulsão dos loucos em tentar segurar suas próprias compulsões?
E os sonhos da infância..? Principalmente estes... onde estão que não posso recordar nem voltar a sonhar...
Diga-me,
daquele sentir de tudo a respeito que repentinamente não é mais o mesmo, das muitas besteiras, da muita tolice...
Daquela risada solta, pranto sentido, abraço apertado.
Fale de tudo mas não fale de saudade que dela sei um oceano, não fale de tempo que para os que amam ele sempre existe.
e a desventura das horas na agonia dos que amam, dos que adoram, que odeiam, choram, gargalham, sofrem e riem?
E a compulsão dos loucos em tentar segurar suas próprias compulsões?
E os sonhos da infância..? Principalmente estes... onde estão que não posso recordar nem voltar a sonhar...
Diga-me,
daquele sentir de tudo a respeito que repentinamente não é mais o mesmo, das muitas besteiras, da muita tolice...
Daquela risada solta, pranto sentido, abraço apertado.
Fale de tudo mas não fale de saudade que dela sei um oceano, não fale de tempo que para os que amam ele sempre existe.
quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007
As Viagens
Nas cálidas vezes em que teu corpo encontrou o meu, fiquei perdida de mim. Viajei dias, noites e madrugadas- feito turista afoita/ansiosa/ébria/ envolta em novidades- procurando por mim. Descobri que rios de sangue e luz desaguavam em meu coração formando cachoeiras, correntezas pulsantes... Que sede de mim, que fome de ti. As mãos, tuas mãos, pareciam ondas roçando minhas pernas. Teus dedos exploradores, lúdicos, a passear pelas entranhas de meu corpo pareciam estar a remoer meu espírito. Nestas viagens esqueci da vida...
quarta-feira, 7 de fevereiro de 2007
Meu Guri
Era uma tarde de março quando anunciaram que ele vinha.
Uma tarde tão cheia de luz que ofuscava os desavisados.
Uma tarde quente como o são as grandes paixões.
Urgia que convocasse os serafins com suas seis asas.
Os querubins com suas espadas flamejantes a guardar a árvore da vida.
Melhor convocar a todos que do bem fossem.
Tínhamos que preparar a chegada.
Fez-se alado para chegar...
Chegou com os guardiões ao seu redor.
Chegou cheio de luz, de amor.
No primeiro olhar eu lhe reconheci do sempre.
Entendi da vida como se fosse onividente.
De tudo sei dizer que eterno em mim será este guri...
Guardião de minha felicidade e razão.
Uma tarde tão cheia de luz que ofuscava os desavisados.
Uma tarde quente como o são as grandes paixões.
Urgia que convocasse os serafins com suas seis asas.
Os querubins com suas espadas flamejantes a guardar a árvore da vida.
Melhor convocar a todos que do bem fossem.
Tínhamos que preparar a chegada.
Fez-se alado para chegar...
Chegou com os guardiões ao seu redor.
Chegou cheio de luz, de amor.
No primeiro olhar eu lhe reconheci do sempre.
Entendi da vida como se fosse onividente.
De tudo sei dizer que eterno em mim será este guri...
Guardião de minha felicidade e razão.
Quando Vens
Hoje fiz a cama com lençóis brancos de puro algodão.
Borrifei água de rosas sobre os lençóis.
Parece tudo tão alvo, tão puro...
Acordei me sentindo assim, leve e pura.
Hoje me banhei de perfume e mel para te esperar.
Lavei meus cabelos, corpo e rosto com cuidado.
Como flor eu fosse e a chuva estivesse a regar-me...
Acordei me sentindo assim, perfumada e delicada.
Hoje te recebi na porta, braços abertos a acolher-te.
Beijei a boca tua, os olhos teus com um amor maior que eu.
Como parte de mim tu fosses...
Acordei me sentindo assim, toda tua sem ter a ti para mim.
Hoje adormeci em teus braços.
Quando percebi já havias partido,
No lugar de teus braços ficou um cheiro forte de jasmim.
Acordei me sentindo assim, fiapo de mim.
Borrifei água de rosas sobre os lençóis.
Parece tudo tão alvo, tão puro...
Acordei me sentindo assim, leve e pura.
Hoje me banhei de perfume e mel para te esperar.
Lavei meus cabelos, corpo e rosto com cuidado.
Como flor eu fosse e a chuva estivesse a regar-me...
Acordei me sentindo assim, perfumada e delicada.
Hoje te recebi na porta, braços abertos a acolher-te.
Beijei a boca tua, os olhos teus com um amor maior que eu.
Como parte de mim tu fosses...
Acordei me sentindo assim, toda tua sem ter a ti para mim.
Hoje adormeci em teus braços.
Quando percebi já havias partido,
No lugar de teus braços ficou um cheiro forte de jasmim.
Acordei me sentindo assim, fiapo de mim.
Pulsa
Pulsa em mim
Algo assim
Acelerado fervente
Lava de vulcão
Brasa labareda
Tudo muito quente
Mas é só quando tu passas
E nem me sente
Algo assim
Acelerado fervente
Lava de vulcão
Brasa labareda
Tudo muito quente
Mas é só quando tu passas
E nem me sente
terça-feira, 6 de fevereiro de 2007
Afogamento
Naquela noite acordei com saudades de mim e perdida no tempo.
Ouvi o barulho das ondas bem ao longe e pareceu que estavam a chamar-me como um amante sôfrego oferecendo-se à sua amada.
Hipnotizada pela insídia criada pelo mar ou pelo meu insano inconsciente, cobri quase que nada do meu corpo com seda dourada tal qual areia a luz do entardecer e fui.
Fui atender ao clamor que invadia meu espírito e assim, descalça e quase nua cheguei à praia. Sentindo a areia ainda morna fui andando em direção ao mar.
O mar que estava a invocar meu corpo, meu ser.
Tudo parecia tão meu, tão parte de mim...
As ondas a beijar-me as pernas, o ventre, os seios, a nuca, lábios, olhos e cabelos, aquele gosto salgado pareceu-me tão doce e tão perfumado quanto um bosque de alcaçuz ou de jasmim-do-cabo, tão inebriada estava que permiti a invasão dos meus pulmões.
Nunca me senti tão amada, tão completa como no dia em que me dei ao mar...
Passeei pelas estrelas de mãos dadas e a fazer companhia à lua enquanto a mesma esperava o sol, brinquei com as conchas, vesti algas e quando o corpo estava a separar-se da alma, mãos calejadas me privaram de viver eternamente com meu amor, meu mar e suas ondas.
Eram de um homem simplório aquelas mãos e foram elas que me devolveram à areia da praia e ao mundo imundo do qual eu fugia.
Na verdade até hoje não sei se fugia do mundo ou de mim, de meus monstros, de meus medos, minha solidão e minha prisão. Sei que ele reuniu corpo e alma novamente e não pude deixar de pensar: pescou-me como quem recolhe peixes e conchas do mar.
Ouvi o barulho das ondas bem ao longe e pareceu que estavam a chamar-me como um amante sôfrego oferecendo-se à sua amada.
Hipnotizada pela insídia criada pelo mar ou pelo meu insano inconsciente, cobri quase que nada do meu corpo com seda dourada tal qual areia a luz do entardecer e fui.
Fui atender ao clamor que invadia meu espírito e assim, descalça e quase nua cheguei à praia. Sentindo a areia ainda morna fui andando em direção ao mar.
O mar que estava a invocar meu corpo, meu ser.
Tudo parecia tão meu, tão parte de mim...
As ondas a beijar-me as pernas, o ventre, os seios, a nuca, lábios, olhos e cabelos, aquele gosto salgado pareceu-me tão doce e tão perfumado quanto um bosque de alcaçuz ou de jasmim-do-cabo, tão inebriada estava que permiti a invasão dos meus pulmões.
Nunca me senti tão amada, tão completa como no dia em que me dei ao mar...
Passeei pelas estrelas de mãos dadas e a fazer companhia à lua enquanto a mesma esperava o sol, brinquei com as conchas, vesti algas e quando o corpo estava a separar-se da alma, mãos calejadas me privaram de viver eternamente com meu amor, meu mar e suas ondas.
Eram de um homem simplório aquelas mãos e foram elas que me devolveram à areia da praia e ao mundo imundo do qual eu fugia.
Na verdade até hoje não sei se fugia do mundo ou de mim, de meus monstros, de meus medos, minha solidão e minha prisão. Sei que ele reuniu corpo e alma novamente e não pude deixar de pensar: pescou-me como quem recolhe peixes e conchas do mar.
O Prostíbulo
A mulher de lábios vermelhos, unhas mal pintadas, vestes atrevidas, parada na porta da casa duvidosa chamava os homens prá si. Insinuante tortura de corpos e gostos, cabelos desleixados e multicoloridos num variante de loiro branco até o preto das raízes. No espaço central da casa, música alta e ruidosa, o ar sufocante carregado de névoa e odores declarava o fumo, o perfume e as bebidas baratas, o suor dos corpos. Nos quartos os gemidos, sussurros, uivos e por que não dizer o barulho dos corpos em orgias carnais. Da janela do prédio da frente enxergava-se os corpos e seus malabarismos sexuais... Num dos aposentos, quase um vestíbulo imundo, dois homens a currar a mesma mulher que se distorcia em movimentos frenéticos que me faziam crer que o prazer era verdadeiro, embora soubesse que era encenação.Espetacular mesmo era a dona do quarto ao lado que variava em atender homens e lésbicas e o fazia por puro prazer. Era diferente das outras essa "dona". Sua aparência bem cuidada dizia que não pertencia àquele antro de luxúria. Não Havia como observá-la sem sentir um prazer que só deveria pertencer aos deuses, nunca aos mortais, tamanha intensidade.Quando beijava outras mulheres - sim ela beijava a boca da mesma maneira que se perdia entre as pernas, grandes e pequenos lábios - e com uma sofreguidão que acelerava o coração de qualquer pessoa que assistisse à cena. Deslizava sua boca e suas mãos pelo corpo da outra como se fosse o seu próprio.Assim também o fazia com os homens. Era como se os falos intumescidos já fossem uma extensão de seu próprio corpo, a destreza com que os sugava, pegava e sentava-se neles me levavam a uma profunda intuspecção que me fez perguntar se na cena que assistia era ela ou eu?
O Brinde
Quase morro tamanho a exaustão de meu riso.
Enquanto alguns fazem brindes a vida, brindo a dama de negro que anda comigo, mas não me dá a mão.
Aquela que deita todas as noites ao meu lado no lugar que antes pertencia ao posseiro de meu coração, meu corpo.
Ela não toca meu corpo, não dorme, mas vela meu sono e todos os dias quando acordo, olho o negrume de seus olhos e pergunto a mim mesma qual pedaço do meu coração será que ela irá arrancar hoje.
Esta senhora que não toca meus lábios, não me dá o deleite de seu beijo frio e ainda assim, não me abandona.
Brindo a esta dona que no fundo é também dona minha.
Vive brincando com minha alma como quem brinca de esconder e quando ouso estender-lhe a mão... Foge alucinadamente de mim.
Ela tem medo, eu não!
Diferentemente de muitos, não temo o inverno gélido que ela traz. O vento eterno e os dias infindos, sombrios...
Não me entendas mal, acho a vida cheia de grandiosidade e merecedora de inúmeros brindes, mas esta dama, esta que está ao meu lado sempre e a distância tênue de um fio de seda...
Esta minha sedutora companheira põe fim a todos os incômodos da vida, acaba com a fome, acaba com a dor (a da alma e a do corpo), sem falar que nos poupa das rugas e das agruras do envelhecer.
A Morte, esta é a imagem da eternidade.
Enquanto alguns fazem brindes a vida, brindo a dama de negro que anda comigo, mas não me dá a mão.
Aquela que deita todas as noites ao meu lado no lugar que antes pertencia ao posseiro de meu coração, meu corpo.
Ela não toca meu corpo, não dorme, mas vela meu sono e todos os dias quando acordo, olho o negrume de seus olhos e pergunto a mim mesma qual pedaço do meu coração será que ela irá arrancar hoje.
Esta senhora que não toca meus lábios, não me dá o deleite de seu beijo frio e ainda assim, não me abandona.
Brindo a esta dona que no fundo é também dona minha.
Vive brincando com minha alma como quem brinca de esconder e quando ouso estender-lhe a mão... Foge alucinadamente de mim.
Ela tem medo, eu não!
Diferentemente de muitos, não temo o inverno gélido que ela traz. O vento eterno e os dias infindos, sombrios...
Não me entendas mal, acho a vida cheia de grandiosidade e merecedora de inúmeros brindes, mas esta dama, esta que está ao meu lado sempre e a distância tênue de um fio de seda...
Esta minha sedutora companheira põe fim a todos os incômodos da vida, acaba com a fome, acaba com a dor (a da alma e a do corpo), sem falar que nos poupa das rugas e das agruras do envelhecer.
A Morte, esta é a imagem da eternidade.
A Senhora
Lá vem a Senhora,
Desfilando em passos lânguidos pelos corredores.
Ela Sabe que para alguns o tempo urge,
Mas nada interrompe seu andar.
Ah, esta Senhora...
Já levou consigo o amor da minha vida e meu amado.
Quando adentra a sala branca, tudo silencia.
Mãos, máquinas, tudo inerte,
Retiram-se todos enquanto ela, num terno abraço,
Recebe aquele que veio buscar.
Ah morte, quão terna tu podes ser.
Desfilando em passos lânguidos pelos corredores.
Ela Sabe que para alguns o tempo urge,
Mas nada interrompe seu andar.
Ah, esta Senhora...
Já levou consigo o amor da minha vida e meu amado.
Quando adentra a sala branca, tudo silencia.
Mãos, máquinas, tudo inerte,
Retiram-se todos enquanto ela, num terno abraço,
Recebe aquele que veio buscar.
Ah morte, quão terna tu podes ser.
Tu em mim
Amo-te mais hoje do que no pretérito de meus anos quando tinha teus braços para enredar meu corpo.
Amo-te de forma anoética.
E te amo além de mim.
E te conheço.
Conheci-te mais enquanto matéria intangível ao meu corpo, pois te sinto mais alma.
Hoje sei de mim que poderei amando a muitos continuar a te amar perenemente, como jamais houvesse amado a outrem porque esgrafitado está em meu coração.
E te quero.
Como quero as manhãs, os entardeceres, as noites, as madrugadas e todas as primaveras febris, verões escaldantes, outonos dourados e invernos gélidos e brancos.
E te penso.
Todos os dias, todos instantes, a cada piscar de olhos, cada respiração.
E te sorvo.
Como água fosse teu espírito, seiva de vida, que me permite renascer a cada aurora, desabrochar a cada sol, pois sei que serás alimento deste ser.
E te desejo.
Um desejo vítreo, água límpida. Um desejo que me que faz outorgar qualquer que seja o teu anseio como se fosses um czar e me tivesses não como uma czarina mas uma escrava em tua custódia.
E também te odeio.
Vem a mim a fúria violenta que pede para te esmurregar até quebrar-me os pulsos porque odeio quanto não te mostras desnudo de teus conceitos, princípios de moralidade que não condizem com aquilo que fostes como negasse chagas habitantes de teu imo. Depois numa dor plangente me encolho tal qual feto inerte, morto antes de haver nascido.
Há de um dia um favônio chegar trazendo tua coima.
Como sibila em destemperança inverterei nossas almas.
Eis que te sentirás da mesma forma que te sinto.
E me amarás.
E me conhecerás querendo-me.
E me pensarás.
E serei teu alimento.
E me desejarás para poderes ter-me ódio.
Depois a dor te deixará inerte.
Deitarás novamente em meu ventre, como dali nunca tivesse saído porque sempre amado.
Eis que liberta em mim mesma poderei partir.
Amo-te de forma anoética.
E te amo além de mim.
E te conheço.
Conheci-te mais enquanto matéria intangível ao meu corpo, pois te sinto mais alma.
Hoje sei de mim que poderei amando a muitos continuar a te amar perenemente, como jamais houvesse amado a outrem porque esgrafitado está em meu coração.
E te quero.
Como quero as manhãs, os entardeceres, as noites, as madrugadas e todas as primaveras febris, verões escaldantes, outonos dourados e invernos gélidos e brancos.
E te penso.
Todos os dias, todos instantes, a cada piscar de olhos, cada respiração.
E te sorvo.
Como água fosse teu espírito, seiva de vida, que me permite renascer a cada aurora, desabrochar a cada sol, pois sei que serás alimento deste ser.
E te desejo.
Um desejo vítreo, água límpida. Um desejo que me que faz outorgar qualquer que seja o teu anseio como se fosses um czar e me tivesses não como uma czarina mas uma escrava em tua custódia.
E também te odeio.
Vem a mim a fúria violenta que pede para te esmurregar até quebrar-me os pulsos porque odeio quanto não te mostras desnudo de teus conceitos, princípios de moralidade que não condizem com aquilo que fostes como negasse chagas habitantes de teu imo. Depois numa dor plangente me encolho tal qual feto inerte, morto antes de haver nascido.
Há de um dia um favônio chegar trazendo tua coima.
Como sibila em destemperança inverterei nossas almas.
Eis que te sentirás da mesma forma que te sinto.
E me amarás.
E me conhecerás querendo-me.
E me pensarás.
E serei teu alimento.
E me desejarás para poderes ter-me ódio.
Depois a dor te deixará inerte.
Deitarás novamente em meu ventre, como dali nunca tivesse saído porque sempre amado.
Eis que liberta em mim mesma poderei partir.
Tempo Eterno
Ah, essas horas que teimam em não passar...
Estes dias de inexistência que sou obrigada a cumprir.
Nada passa, parece tudo perpétuo como alguns túmulos o são.
O retorno à minha verdadeira casa parece tão lento que, por vezes, imagino esta demora como um castigo atormentando-me nesta não vida.
Que saudades de mim, do meu universo, dos meus odores, das minhas pessoas, dos meus mortos.
Tenho saudades dos que partiram sem despedir-se de mim, dos que ainda partirão, embora saiba que todos e cada um, irão quebrar um pedaço do meu coração e rasgar um tanto da alma minha.
Ah, estes dias, estes anos, estes amores que demoram a passar.
Cadê a morte que não chega?
Estes dias de inexistência que sou obrigada a cumprir.
Nada passa, parece tudo perpétuo como alguns túmulos o são.
O retorno à minha verdadeira casa parece tão lento que, por vezes, imagino esta demora como um castigo atormentando-me nesta não vida.
Que saudades de mim, do meu universo, dos meus odores, das minhas pessoas, dos meus mortos.
Tenho saudades dos que partiram sem despedir-se de mim, dos que ainda partirão, embora saiba que todos e cada um, irão quebrar um pedaço do meu coração e rasgar um tanto da alma minha.
Ah, estes dias, estes anos, estes amores que demoram a passar.
Cadê a morte que não chega?
Famélica
Quero teu corpo deitado sobre o meu, mas não com cuidado, sendo leve.
Quero sentir teu corpo pesando sobre meu peito, assim tirando-me o ar dos pulmões.
Quero sentir tua respiração, em meu rosto, ouvi-la em meus ouvidos.
Quero teu hálito em minha boca.
Quero tuas mãos passeando firmes em meu pescoço, nuca, colo, seios, ventre, pernas, braços, enfim todo meu corpo teu.
Quero que me mordas, não assim de leve, não assim com lábios, quero teus dentes em minha carne.
Quero-te vasculhando minhas entranhas com todo anelo possível e de todas formas cabíveis, te quero em mim.
Quero teu suor grudando, pingando sobre meu corpo, meus cabelos colados e teus cabelos em minhas mãos.
Quero explorar teu corpo com minhas mãos, com minha boca.
Quero minha língua passeando por ti.
Quero lamber teus olhos, teus dedos, tuas mãos, morder teus lábios, teu queixo, teus ombros e tudo mais que houver de ti...
Quero fartar-me do corpo teu.
Quero ficar anestesiada, embriagada, trêmula, tonta de ti e ainda assim continuar...
Continuar até não saber mais de nada.
Não saber quem sou. Quem fui e quem és.
Vou te encontrar só para poder perder-me.
Que fome insana de ti.
Quero sentir teu corpo pesando sobre meu peito, assim tirando-me o ar dos pulmões.
Quero sentir tua respiração, em meu rosto, ouvi-la em meus ouvidos.
Quero teu hálito em minha boca.
Quero tuas mãos passeando firmes em meu pescoço, nuca, colo, seios, ventre, pernas, braços, enfim todo meu corpo teu.
Quero que me mordas, não assim de leve, não assim com lábios, quero teus dentes em minha carne.
Quero-te vasculhando minhas entranhas com todo anelo possível e de todas formas cabíveis, te quero em mim.
Quero teu suor grudando, pingando sobre meu corpo, meus cabelos colados e teus cabelos em minhas mãos.
Quero explorar teu corpo com minhas mãos, com minha boca.
Quero minha língua passeando por ti.
Quero lamber teus olhos, teus dedos, tuas mãos, morder teus lábios, teu queixo, teus ombros e tudo mais que houver de ti...
Quero fartar-me do corpo teu.
Quero ficar anestesiada, embriagada, trêmula, tonta de ti e ainda assim continuar...
Continuar até não saber mais de nada.
Não saber quem sou. Quem fui e quem és.
Vou te encontrar só para poder perder-me.
Que fome insana de ti.
Assinar:
Comentários (Atom)
