terça-feira, 6 de fevereiro de 2007

Afogamento

Naquela noite acordei com saudades de mim e perdida no tempo.
Ouvi o barulho das ondas bem ao longe e pareceu que estavam a chamar-me como um amante sôfrego oferecendo-se à sua amada.
Hipnotizada pela insídia criada pelo mar ou pelo meu insano inconsciente, cobri quase que nada do meu corpo com seda dourada tal qual areia a luz do entardecer e fui.
Fui atender ao clamor que invadia meu espírito e assim, descalça e quase nua cheguei à praia. Sentindo a areia ainda morna fui andando em direção ao mar.
O mar que estava a invocar meu corpo, meu ser.
Tudo parecia tão meu, tão parte de mim...
As ondas a beijar-me as pernas, o ventre, os seios, a nuca, lábios, olhos e cabelos, aquele gosto salgado pareceu-me tão doce e tão perfumado quanto um bosque de alcaçuz ou de jasmim-do-cabo, tão inebriada estava que permiti a invasão dos meus pulmões.
Nunca me senti tão amada, tão completa como no dia em que me dei ao mar...
Passeei pelas estrelas de mãos dadas e a fazer companhia à lua enquanto a mesma esperava o sol, brinquei com as conchas, vesti algas e quando o corpo estava a separar-se da alma, mãos calejadas me privaram de viver eternamente com meu amor, meu mar e suas ondas.
Eram de um homem simplório aquelas mãos e foram elas que me devolveram à areia da praia e ao mundo imundo do qual eu fugia.
Na verdade até hoje não sei se fugia do mundo ou de mim, de meus monstros, de meus medos, minha solidão e minha prisão. Sei que ele reuniu corpo e alma novamente e não pude deixar de pensar: pescou-me como quem recolhe peixes e conchas do mar.

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