sexta-feira, 16 de fevereiro de 2007

A Mulher, a cidade e os aeroportos

A noite chegou rápido para um dia de verão, são 19 horas e um breu tomou conta de tudo, lá fora só um sem fim de raios, trovões e granizo.
Bem que a companhia de aviação avisou que o vôo iria atrasar, isto antes da tempestade se formar, imagine agora!
Mesmo sabendo do atraso do vôo vim cedo para o aeroporto, não suporto mais ficar nesta cidade, até o ar daqui já me sufoca, nem meus pulmões querem continuar neste lugar miserável.
Depois de tanta confusão nos aeroportos, este hoje está vazio. Meia dúzia de pessoas. Antigamente eu analisaria cada uma, suas roupas, suas expressões, as bagagens, as revistas...
Vou tomar um café, talvez seja a única coisa boa desta cidade: o café. Sou viciada num bom, amargo e quente café.
A voz rouca no alto-falante avisa que todos os vôos estão atrasados e sem previsão de chegada ou saída, não há teto. Nem precisava dizer, pois só algum imbecil desta cidade acreditaria que algum avião iria aterrissar ou alçar vôo numa tempestade destas!
Hahahahahaha! Vai ver que a chuva é a minha despedida deste mundinho de medíocres, arrogantes e pedantes miseráveis que se intitulam humanos.
-Por favor, um expresso duplo com canela.
-A senhora quer açúcar ou adoçante?
-Nenhum dos dois, obrigada.
Queria mesmo uma máquina do tempo, para voltar alguns anos e nunca ter pisado neste lugar fétido. Isto, fétido! As pessoas daqui fedem. O preconceito deste povo está impregnado com cheiro de merda.
Bem lembro do dia em que desembarquei neste mesmo aeroporto seis anos atrás. Trazia na minha bagagem um tanto de esperança, felicidade e sonhos. Promessas, promessas, promessas...
Sentei neste mesmo lugar, eles ainda não serviam o café com canela, mas este sempre foi de um sabor e aroma deliciosamente envolvente.
Aqui também, há seis anos, o encontrei.
Quando virei o rosto e avistei aquele sorriso imenso fui obrigada a sorrir também, fiquei contagiada.
Levantou-se e veio em direção a minha mesa. Era um homem alto, elegante, mas com aquele uniforme qualquer um pareceria elegante. Não, definitivamente ele não era bonito. Olhos escuros e profundos tão inebriantes quanto aquele sorriso. Maldito sorriso, hahahaha...
Era inteligente e dono de um humor sagaz... Apaixonei-me.
Encontrar alguém que sorri e me olha daquele jeito e ainda carrega dois dos meus predicados favoritos é uma dádiva!
Ele não morava nesta cidade, vinha umas duas ou três vezes na semana.
Uma pessoa como ele não poderia ser daqui mesmo.
Fui morar num pequeno apartamento, mas ideal, passava pouco tempo em casa e tinha espaço suficiente para meus livros e plantas.
Resolvi mudar para dar um giro na minha carreira, começar um projeto desafiador. Vim cheia de energia e milhares de idéias, mal sabia que iria encontrar pessoas tão retrógradas e ignorantes.
Decidi vir para esta cidade porque fui procurada por uma empresa com uma oferta irrecusável, não pelo valor financeiro – encontrava-me numa situação bastante agradável – era o desafio de pesquisar outro mercado, descobrir novos públicos, pesquisar, conhecer, aprender, saber, saber, saber.
O descobrir e viver sobre culturas, povos, costumes, este conhecimento que chamo de “pé- no- chão”, que não está nos bancos das universidades, que não titula ninguém, que é diferente em cada bairro, cidade, estado, país é o meu cáften. Leva minha razão, cega, agride. Sei que irei prostrar-me e mesmo assim estou sempre atrás dele, como a meretriz o faz.
Fazer o quê? Cada um com sua droga, sua cachaça, sua sina.
O maior desgosto é sentir o malsinar dos pobres de espírito enquanto construímos “pontes” entre a cultura e a ignorância. Apresentamos projetos e estes são aprovados apenas para mais tarde arderem numa grande, imensa fogueira de vaidades cujas chamas são alimentadas por uma doentia disputa de poder. Cada hipócrita vai impingir sua vontade e assolar a edificação do outro. Antropofagia entre gestores. Politicagem barata.
Tudo bem, então porque insistir? Quero idear um povo que enxerga e busca suas verdades. Cadê? Só em outra cidade e cá para nós, outro país. Aqui? Só se ouve amém. São cegos, surdos e mudos, não que a vida lhes tenha imposto esta condição, optaram pela acomodação e ignorância eterna. É melhor ser o truão, do que ser mal visto pelo rei e como se diz: rei morto, rei posto, viva o rei! A súcia vai atrás.
E sigo alimentando e dando boa vida ao meu “cáften” conhecimento, até chegar ao limite de minha tolerância e jogar tudo para o alto.
Quando recebi meu passaporte fui invadida por um sentimento de liberdade inenarrável e hoje, quando entreguei as chaves do apartamento ao novo proprietário, foi como tivesse tirado uma caçamba de entulhos do meu dorso.
Saí só com uma mala e a frasqueira de mão que a bagagem maior está no espírito, com alegria ou dor é lá que está o meu conhecimento.
A chuva aumentou. Daqui a pouco cai o céu sobre esta cidade encardida.
Só me falta perder a conexão. Porra! Até para sair desta bosta de lugar é difícil. Ele odiava quando eu falava palavras de baixo calão, fora da cama diga-se, porque nela, nela ele adorava.
Vou sentir falta dos passeios nos parques. Vou passear por outros parques, mas ele não vai estar lá. Vou sentir é falta dele nos passeios, não dos parques. Odeio esta mania de confundir o objeto de meu sentimento, comecei a fazer isto há uns quatro anos, já era um sinal para partir.
Algumas vezes acho que sou uma mula teimosa, seis anos...
- A senhora deseja mais alguma coisa?
- Pode me trazer outro café.
Já passa das 9 horas da noite e esta chuva só aumenta, ao menos parou o granizo. Depois que meu avião decolar quero mais é que esta cidade seja engolida pela água, e que o Pai me perdoe por este desejo.
- Seu café.
- Obrigada.
Esta hora ele deve estar na Itália. Depois de tudo ele demitiu-se e foi contratado por uma companhia internacional que não tem negócios neste nauseabundo país. Queria Ter participado mais ativamente de todo esse processo de reconstrução de sua vida. Empresa nova, morada nova.
Desde o escarcéu que culminou com o espetáculo podre de humilhação, tudo foi muito célere. Foi esta grande inteligência e agudeza de espírito que me entorpeceram. Fora aquele sorriso. E o olhar que devasta a alma da gente.
Nunca tinha sentido a felicidade tão viva em mim até viver com este homem.
Pensando bem, acho que nunca tinha sentido meu corpo tão vivo até transar com este homem. E como este corpo viveu... Mil vezes, cada vez mais vivo e mais intenso, mais descoberto, mais meu, mais eu.
Ele nunca poderia Ter pisado nesta cidade. Ele transcende esta imundície toda.
Na madrugada de ontem nos falávamos ao telefone quando ele disse que provavelmente iria estar no aeroporto quando meu vôo aterrissasse.
- Poderíamos tomar um café, não sei se irás gostar do café de lá, mas seria tão gostoso trocar um abraço, um beijo, alguns sonhos e abrandar a saudade.
- Negócio fechado! A saudade de ti é como um estorvo na felicidade que descobri. Assim que desembarcar irei te procurar ou me esperas no desembarque.
- Combinado! Eu te amo.
- Eu também te amo.
E a gente se ama mesmo. Um amor verdadeiramente incondicional.
Dez e meia e lá vem a voz rouca repetindo que os vôos estão atrasados e não há previsão de pousos e decolagem. Tenho que rir. Com toda chuva tem gente que vai ao balcão das companhias para perguntar que horário irá sair o vôo.
Acho que vou comprar uma revista ou algum livro, só para afastar do meu pensamento esta cidade.
Putz, que merda!
Aquele imbecil que minou o projeto de educação tá lá na livraria, melhor continuar aqui. Vou contar até dez. Calma mulher, tu já vais embora desta cidade, é uma questão de horas, respira, levanta a cabeça, descerra os punhos.
Onze e meia.
A chuva está escasseando. O céu parece ter abrandado a fúria voraz que dava a impressão que devastaria este pedaço do mundo.
Pousou um avião. A voz rouca está chamando para embarque, ainda não é meu vôo. Acho que mais uma hora e eu estou fora.
Podia ter pagado alguém para estourar rojões na minha saída, uma comemoração por abandonar a estupidez desta cidade.
Vou caminhar um pouco.
Estão chamando o embarque do meu vôo. Credo! Acho que vou infartar de felicidade.
- Boa noite senhora.
- Boa mesmo, nem imaginas o quanto.
Taxiando... Decolamos.
Assim que chegar ao outro aeroporto para o embarque internacional vou trocar de sapatos e colocar estes no lixo, não quero levar nem o pó daquela cidade de bosta.
Até no pensar eu era mais elegante. Vou Ter que reconstruir tudo que ruiu em mim nestes últimos seis anos.
Vamos aterrar. Não acredito! Não dá para acreditar a pista está seca e o avião derrapou. Vou Ter que correr para não perder o embarque do outro vôo. Eu vou para puta que pariu, mas não vou passar o resto da madrugada neste país! Depois, ele vai estar me esperando lá no aeroporto.
Que boa noite que nada, tenho que correr.
Bem na hora, estão chamando o vôo para Paris, vou trocar de sapatos no avião.
Primeira classe, eu mereço. Já troquei os sapatos. Assim que sair do espaço aéreo deste país irei pedir um espumante e depois vou dormir. Que o Pai não me castigue, tenho que comemorar.
Estamos aterrissando. Tudo novo. Novos desafios, nova casa, novo trabalho, novas culturas. Empolgação, meu corpo está tomado de ti.
Ele está acenando, ainda mais lindo agora do que quando o conheci. O amor retribuído faz com que as pessoas fiquem lindas, o espírito feliz irradia esta aura de beleza. Vem de dentro.
- Que saudades, amado!
- Eu também estava louco de saudades, como foi teu vôo? Fiquei sabendo que o céu quase desabou por lá, tive receio que um atraso impedisse nosso encontro. Temos uma hora para colocar a conversa em dia e matar as saudades, depois tenho que voar. Vamos tomar um café?
- Vamos sim! Aqui em Paris iremos nos encontrar mais, pelo menos nas tuas escalas. E o teu amor como vai?
- Ele está ótimo, estamos muito bem. Acho que depois de toda confusão, todo aquele circo de horrores que passamos naquela cidade, somos sobreviventes.
- Com certeza. Eu perdi o homem, tudo bem, hahahaha, ganhei um grande amigo, feliz e em paz consigo mesmo. Isso não tem preço. Na realidade ganhei dois amigos. Diz para ele que quando tu fores ficar muitos dias fora é para ele vir para minha casa.
- Tu não estás pensando em me roubar o namorado depois de tudo que passei para ficar com ele, bandida!
- Não, nem precisas te preocupar, fala aí da minha casa!
- Está tudo arrumado é só entrares, deixei como sei que gostas, comprei os lençóis todos brancos, toalhas brancas, tem uma comidinha básica na geladeira, frutas e saladas. Deixei alguns jornais e revistas para te inteirar dos acontecimentos da cidade, o micro já está instalado.
- Obrigada, tenho certeza que vai estar tudo muito gostoso e do meu jeito. E ele já está trabalhando?
- Sim, está ministrando aulas na faculdade, fazendo aquilo que gosta, estamos num momento muito bom. Puxa que rápido que passou, tenho que ir. Deixei alguns números de telefone de amigos, pessoas que podem te ajudar no começo, anotados numa agenda que está no aparador da entrada. Deixa eu te dar um braço e um beijo, te amo.
- Eu também te amo, obrigada por tudo. Tchau.
- Não precisa agradecer, tchau.
Bem, acho que vou tomar mais um café antes de ir.
- s'il vous plait un café!
Nossa! De onde vem essa risada? Que sorriso lindo! Ah, Paris...

Nenhum comentário: